TÉRMINO DE TRATAMENTO E O CONCEITO DE PORTANCE

Após longo e dinâmico caminho percorrido pela dupla em psicoterapia psicanalítica, considerando-se e avaliando conjuntamente uma série de variáveis, eis que se aproxima e é chegada a hora do encontro derradeiro, marcando o término do tratamento. Levando em conta a minha vivência profissional e comentários dos colegas a respeito, acredito que tais casos não representem maioria na clínica atual. É um privilégio quando eventualmente acontece, já que  estamos falando de uma jornada de intensa carga emocional, que deixa marcas profundas e inesquecíveis para ambos da dupla do que ali foi vivido, trocado, repetido, integrado.

A etapa final de um tratamento em psicanálise, dada sua importância devido às vicissitudes inerentes à técnica e à separação concreta que esse momento representa, é objeto de estudo ao longo dos anos. Cabe ao psicoterapeuta lançar mão do arsenal de contribuições sobre o tema, para assim, facilitar, conduzir, sustentar seu paciente nesse processo. Quando falamos em término, falamos exatamente disso: um processo que vai sendo construído ao longo de um período de provavelmente alguns meses. Nessa fase final, busca-se fortalecer e consolidar determinados aspectos presentes no psiquismo do paciente em questão (que podem ter sido motivos de busca para a psicoterapia), bem como retomar a atenção devida à angústia de separação que emerge com especial intensidade nesse momento.

Para se chegar a uma data em que a saudação da despedida não remeterá a uma próxima sessão, mas marcará o término de uma era, bem como a consequente separação da dupla, Jean-Michel Quinodoz em sua obra “A solidão domesticada – angústia de separação em psicanálise”, no capítulo denominado: “Capacidade de estar só, portance e integração da vida psíquica”, apresenta o conceito de portance.

Tal conceito se aplica na análise minuciosa e atenta acerca das habilidades e capacidades que devem ser alcançadas pelo paciente ao longo de sua caminhada. Portance relaciona-se intimamente com a “capacidade de estar só na presença de alguém” de D. W. Winnicott (1958), e o conceito de “integração da vida psíquica”, de M. Klein (1959), assim como da “aquisição da constância do objeto”, de M. Mahler (1975).

Quinodoz revisa Winnicott ao apresentar a “capacidade de estar só em presença de alguém” como um complexo conjunto de sentimentos que caracterizam a maturidade psíquica. Resumidamente, para Winnicott, existem duas formas de solidão ao longo do desenvolvimento: uma primitiva, em uma fase inicial do desenvolvimento cuja imaturidade do ego é compensada de modo natural pelo suporte do ego da mãe; e a solidão do estar só em presença de alguém, quando o indivíduo introjeta essa mãe suporte do ego, sem precisar recorrer a todo momento a ela (ou à representação equivalente). 

O estabelecimento de um objeto bom dentro do ego marca então a aquisição de uma “força do ego” suficiente para tolerar a ausência do objeto sem angústia excessiva, o que permitirá, posteriormente, superar a tristeza diante das inevitáveis perdas que ocorrem na realidade externa.

Esse é um processo progressivo de internalização e constitui o resultado da elaboração das repetidas experiências de separação seguidas de reencontros. A maneira como tal processo vai se dar nas primeiras relações de objeto do paciente é o que forma algo como um “protótipo” para as demais relações de objeto ao longo de sua vida, sendo esse um padrão que tende a se repetir.

Feita essa brevíssima retomada, Quinodoz nos lembra que a finalidade do tratamento não é a de fazer desaparecer completamente a angústia (já que isso seria a realização de um desejo onipotente e maníaco), mas adquirir maior capacidade de conter a angústia, a dor psíquica e o sentimento de solidão. 

A qualidade de portance, então, é adquirida através de um processo semelhante ao da internalização, ligado à capacidade de sustentação do terapeuta, à sua confiabilidade expressa principalmente pela confiabilidade do setting psicanalítico. 

Portance seria, então, a qualidade de autossustentação do objeto internalizado. Essa sensação de autossustentação é percebida, tanto pelo terapeuta como pelo paciente, como um ganho de autonomia em relação à dependência e como uma afirmação da identidade do paciente que se sente vindo a ser ele mesmo, verdadeiramente. 

O “voar com as suas próprias asas” que Quinodoz menciona como produto final do tratamento, poderia representar a essência da portance do objeto internalizado, haja vista que o paciente percebe que adquiriu uma capacidade de autossustentação que o torna independente do objeto pelo qual até então tinha necessidade de se sentir “sustentado”. 

Portance é igualmente, sentir que o aparelho psíquico está identificado com um objeto bom e com sua capacidade continente. No entanto, a portance é o resultado de um equilíbrio dinâmico constantemente rearranjado e jamais encontrado definitivamente, como reforça Quinodoz.

Esse “equilíbrio dinâmico” me parece um grande desafio para o psiquismo, especialmente no momento pós término do tratamento. O paciente vai seguir sua caminhada, agora solitária, permeada por crises – esperadas e inesperadas –  que são inerentes a qualquer organismo vivo que precise lutar por sua sobrevivência. Aquela pessoa que se permitiu um tratamento em psicanálise com início, meio e fim precisará lidar com os reveses da vida. No entanto, espera-se que a portance como habilidade adquirida ao longo do tratamento, possa mostrar seus efeitos.

Sendo assim, vemos então que a portance atua a favor do paciente, não no sentido de garantir menos sofrimento ou menos situações que causem dor e desprazer, mas no sentido de oportunizar a sensação interna de autossustentação. É mais ou menos como olhar pra dentro e enxergar mais possibilidades. A partir dessa melhor instrumentalização de si, a realidade que se apresenta tende a ser administrada de forma mais autônoma, com a angústia sentida em níveis menos danosos.

Vivenciar o fim de um tratamento pode assumir diferentes repercussões emocionais. Espera-se que a dupla tenha conseguido trabalhar suficientemente bem as questões relacionadas com a ansiedade de separação, com a consequente internalização de objetos bons, de cuidado e de continência. Para que, dessa forma, o paciente possa despedir-se e seguir o seu próprio caminho sentindo-se confiante em “voar com as suas próprias asas”, independentemente das condições do vôo.

 

Autora: Silvana Lissarassa Winkler, Membro Efetivo do ESIPP.

 

Fonte: Capítulo 12 de “A solidão domesticada – angústia de separação em psicanálise”, de Jean-Michel Quinodoz. Porto Alegre, 1993.