QUEM FOI VICTOR GUERRA

Victor Guerra (1958–2017), psicólogo e psicanalista uruguaio, integrou a APU – Associação Psicanalítica Uruguaia – e a ABEBÊ, assim como coordenou o Espaço de Crianças e Adolescentes da Fepal. Dedicou-se ao estudo e à pesquisa da relação pais-bebê, tendo passado dezoito anos realizando trabalho de consultas terapêuticas no Jardin de Infantes Maternalico de Sara Ponce de León, local no qual ampliou e desenvolveu sua escuta analítica.
Interessou-se pelo estudo das relações, atendo-se à intersubjetividade e à importância dos vínculos – em especial o vínculo entre mãe (ou quem ocupa o lugar materno) e bebê –, e denotando toda a importância dessa(s) relação(ões) primeira(s) no desenvolvimento do psiquismo das crianças. Criou o conceito de Objeto Tutor: objetos cotidianos eleitos e construídos em conjunto na relação mãe-bebê, e que conferem segurança e sentimento de continuidade e permanência à criança, ainda que sua mãe não esteja por perto. Conforme analisado por Guerra, esse sentimento cresce e se torna mais forte ao longo do tempo, possibilitando ao bebê tolerar os momentos de ausência materna e perceber-se separado da mãe. Essas experiências afetivas, que iniciam a criação de um espaço entre a dupla mãe-filho, fortalecem o self da criança e formam as bases para a capacidade de subjetivação e simbolização, ou seja, são os primórdios da constituição subjetiva. Para Guerra, esses objetos seriam anteriores e distintos dos objetos transicionais pensados por Winnicott.
Tendo em vista as dificuldades que podem ocorrer nas etapas iniciais da subjetivação, Guerra sugeriu uma nova categoria diagnóstica: a dos Transtornos de Subjetivação Arcaica. Esta foi pensada como uma alternativa ao diagnóstico de autismo em crianças muito pequenas, com sintomatologia relativamente típica, a qual Guerra entendia ser produto da relação entre os pais e seu bebê.
Dono de uma escrita poética, Guerra gostava de integrar a psicanálise ao campo das artes. Muito citou poetas como Manoel de Barros e Ferreira Gullar, e ficou conhecido por sua sensibilidade e empatia.

Colaboração: Tássia Theves, Membro Associado do ESIPP.