PSICOTERAPIA OU PSICANÁLISE

Desde Freud, inúmeros autores psicanalistas têm se ocupado do tema da diferença entre análise e psicoterapia, como técnicas de tratamento. Um dos mais recentes debates sobre o tema está publicado no Livro Anual de Psicanálise, tomo XXVI, 2012, com a participação de Blass, Kächele, Widlöcher, e Busch. Como psicoterapeuta há 60 anos e formador de psicoterapeutas há cerca de 50, coloco aqui o que entendo como diferenças entre análise e psicoterapia. Para início, cito uma simplificação que elaborei para meus alunos: a análise tem como espinha dorsal a interpretação da transferência, enquanto que a psicoterapia tem como espinha dorsal a aliança terapêutica.

Penso que as principais diferenças entre análise e psicoterapia encontram-se na formação. O candidato a analista deve se submeter a quatro sessões semanais, com um analista didata, o que, teoricamente, implica num tratamento mais abrangente do que o de um candidato a psicoterapeuta, que opta, em geral, por duas sessões semanais, com um terapeuta da sua escolha. Digo teoricamente, porque existem outras variáveis a serem consideradas, tais como as condições pessoais do candidato à formação, pois muitas vezes um candidato a psicoterapeuta pode apresentar melhores condições do que um candidato a analista, tema já exposto por Reik (Trinta años con Freud, ediciones Imán, B.A., 1943,pág.55-68) e por Nacht (De la pratique a la théorie psychanalytique, P.U.F., Paris,1950, pág.152-165).

Quanto aos conteúdos teóricos dos seminários, tanto na formação psicanalítica, como na de psicoterapia, penso que se equivalem, embora em alguns Institutos possam existir limitações nas abordagens teóricas, enquanto que na formação dos psicoterapeutas , como no caso do ESIPP, exista maior espaço para as diversas orientações teóricas.
No que se refere às supervisões, creio que os critérios e as exigências se equivalem em ambas as formações. No caso do ESIPP, os supervisores passaram por treinamento específico , tendo também em seu quadro, analistas. Novamente, aqui está presente uma diferença de que na formação analítica o supervisor é um didata, e que , teoricamente, enfatizo, teria um maior preparo.

Dentre tantas diferenças, talvez a mais significativa esteja numa das estratégias técnicas, ou seja, a posição frente a frente na psicoterapia, diferenciada ao uso do divã na análise. Não tenho dúvidas de que na posição frente a frente, não só as resistências e contra resistências ficam mais expostas, como também é mais mobilizadora do material consciente e inconsciente, tanto no terapeuta quanto no paciente.

Resumindo, na fundamentação teórica há muito poucas diferenças entre uma formação psicanalítica e uma formação psicoterapêutica, as variações dependem fundamentalmente do preparo do candidato, e dos referenciais teóricos de cada instituição, embora sejam todos de orientação psicanalítica.

Existem, ainda um diferencial importante, quanto aos fatores econômicos, que não podemos desconsiderar, já que a formação analítica é bem mais dispendiosa e de duração mais prolongada do que a formação de psicoterapia. Fiz aqui um breve resumo, de um trabalho bem mais extenso sobre o tema, com a intenção de ajudar o candidato a psicoterapeuta ou a analista a refletir sobre sua escolha.

 

Autor: Isacc Sprinz – Coordenador do ESIPP.