PORQUE NÃO LER BION?

Na obra  Psychoanalytic Pioneers, editada por M.Grotjahn, Franz Alexander ao redigir a biografia de Sandor Rado, assinala que este introduziu neologismos desnecessários para descrever fenômenos para os quais já existiam termos tradicionalmente aceitos. No lugar de inventar novos termos, se tivesse utilizados os já existentes, sua obra poderia ter adquirido maior importância. Entendemos que Bion reeditou Rado, no lugar da linguagem psicanalítica existente, inventou uma , alienada da psicanalise tradicional , por vezes filosófica, por vezes mística, por vezes esotérica e até mesmo parafrênica, tornando  incompreensíveis muitos dos seus textos. Por isso podemos dizer que existe quatro Bions: o Bion filósofo que está presente em toda sua obra, um Bion psicanalítico que está presente no inicio de sua obra mas que desaparece ao longo dela, um Bion derreísta e um Bion místico  que cresce de modo progressivo principalmente após 1965. Cooper (2020) discute semelhanças e diferenças de identidades entre os trabalhos de Bion e o professor budista Soto Zen. M.Klein, comentou que ficava surpresa com aqueles que liam Bion e diziam ter entendido, porque ela precisava ler e reler várias vezes para poder encontrar algum sentido no que Bion havia escrito (James Gammill, Quelques Souvenirs Personnels sur M.Klein, in Melanie Klein Aujourd’hui, Lyon Ed.,1989)

Mal comparando e guardada as proporções , Bion se assemelha ao personagem vivido por Peter Sellers no filme Muito Além do Jardim. Ou seja , autores inteligentes, ao lerem Bion encontram um significado  nos seus escritos por vezes indecifráveis , que  não existe neles mas apenas no pensar desses autores. Como disse Hanna Segal : “Eu tinha um enorme respeito por Bion como pensador e penso que suas teorias de pensamento, todo o seu trabalho sobre continente e o conteúdo, os ataques ao vínculo , são de valor inestimável. Sobre o último Bion eu não posso dizer muito, exceto que, para mim soa muito mais místico e isolado do trabalho clínico… O que Bion passou a representar, em Los Angeles e no Brasil, não corresponde bem àquele de quem eu gostava. Parece que ele se tornou mais um guru e menos alguém que oferece evolução” ( Sobre psicanalise e psicanalistas, 2003,pág 216). Ou como escrevem os Symington :” Os discípulos leais de Melanie Klein aceitam os primeiro trabalhos de Bion, mas mostram desconfiança relativamente aos últimos. Um kleiniano sênior disse que depois de Elementos da psicanálise, Bion nunca mais voltou a escrever algo que valesse a pena,”( O pensamento clinico de W.Bion, pag. 29).

Bion também poderia ter mencionado os autores de quem capturou suas ideias , como assinala H. Rosenfeld. Lendo Bion, parece estar lendo Locke, Kant, Frege, entre os filósofos e Freud, Ferenczi, Rank, Federn, Klein, Winnicott, Hartmann, Matte Blanco, entre os psicanalistas. Como diz Green (Conferências Brasileiras de André Green, Imago,1990, pág.63) “temos pensadores psicanalistas que se lançaram em desenfreadas especulações de modo que fica  difícil ver como articulam suas ideias”. Podemos citar os comentários críticos de French , Brierley e outros( R.P.vol.26,pág 679), ou como comenta Zetzel (Psychanal. Q. 38, pág. 475) “suas suposições assumem proporções de uma filosofia ou religião”. Sem dúvida na maioria dos seus textos há um problema notacional que obscurece a clareza de suas ideias.

Mas para quem deseja ler Bion, recomendo que primeiro leia Federn, Rank, Winnicott , Klein , Hartmann e todos os autores nos quais ele se inspirou, omitindo-os. Muitos conceitos de Bion, como a grade, riverie, e caesura  ,  e outros relacionados, não passam de exercícios intelectuais que servem mais para racionalizar as emoções e camuflar que foram capturados de escritos prévios de outros autores, sem que os mesmos sejam citados.  Porém Bion não pode se ignorado, deve ser lido, até para poder ser criticado,  mas principalmente porque  inúmeros autores buscam inspiração em seus textos, e que por isso estes estão na lista dos mais citados, o que também explica porque  torna uma das tendências  seguidas por alguns autores da América Latina e em especial no Brasil e outros da Inglaterra e da Itália. Por fim o motivo pelo qual estou apresentando este resumo , que poderia ser muito mais extenso:  tenho sido perguntado do porque tenho reservas a maioria dos textos de Bion.  Porque  além de concordar com as críticas dos autores citados, simplesmente entendo que sua contribuição original para a psicoterapia psicanalítica é praticamente nula.

Autor: Isacc Sprinz – Coordenador do ESIPP.