POR QUE NÃO CONSEGUIMOS ESCOLHER QUEM AMAR (e porque somos tão exigentes com quem amamos)

Uma das grandes contribuições de Freud acerca de como os seres humanos se relacionam é uma ideia bem difícil de aceitar: apesar de nos sentirmos donos das nossas escolhas, elas são bem menos livres do que pensamos.

Durante o nosso desenvolvimento, vivenciamos relacionamentos importantes e formativos (como pais e irmãos) que moldaram a nossa definição do que é AMAR, do que esperar de quem amamos e do que esperam de nós.

Criamos um “filtro” que permeia a experiência na vida e nos relacionamentos. A forma como nos foi apresentado o mundo, as primeiras pessoas que nos ensinam o que é amar, auxiliam na configuração mais primordial do filtro.

Uma parte desse processo resulta em escolhas conscientes. Por exemplo, podemos priorizar parceiros que sejam intelectuais, pois admiramos essa qualidade em nossos pais ou figuras de cuidado. Racional e simples assim.

Entretanto, boa parte da atração deriva de processos inconscientes. Podemos repetir padrões que causam sofrimento ou buscar um estilo de relação que sabemos (racionalmente) que resultará em fracasso, mas que inconscientemente permanece sendo a referência do que é o amor.

A esse processo Freud deu o nome de “Transferência”. Ele também explica porque fazemos pedidos silenciosos sobre-humanos para as pessoas que amamos: apoio incondicional, capacidade de ler mentes (a nossa, preferencialmente!), dedicação integral. Aprendemos a amar com base na forma como fomos amados por pessoas que realmente faziam tudo isso: os pais.

A única forma de estar mais livre para fazer a escolha de um(a) parceiro(a) é reconhecer a existência deste filtro, compreender quais experiência o moldaram e como ele permanece ativo nas escolhas que fazemos. Só assim é possível estar mais próximo de uma verdadeira “escolha” – mais realista e menos atravessada pelo passado.

Autora: Bruna Holst, psicoterapeuta psicanalítica, membro do ESIPP e doutora em Psicologia Clínica.