POR ONDE ANDA A INFÂNCIA?

A ideia de infância não existiu sempre da mesma forma, pois é uma categoria construída e determinada culturalmente, através da história da humanidade. Até a Idade Média, não havia na sociedade ocidental uma consciência da condição infantil como uma particularidade, a criança era considerada um adulto incompleto, inoperante, incapaz e sem virtudes.

Na antiga Grécia, por exemplo, a concepção de homem, fortemente influenciada por Aristóteles, tinha como eixo a busca pela virtude, condição para alcançar o status de indivíduo. De acordo com essa concepção, a partir do nascimento, as pessoas precisavam e deveriam ser orientadas longamente para alcançarem este status. Foi instituído, então, que durante os primeiros sete anos de vida, essa orientação ficaria inteiramente a cargo da família, considerada o primeiro lugar de socialização do indivíduo. Portanto, o regulador de sua identidade física, psicológica e cultural era a família. A principal função paterna era exercer sua autoridade no grupo familiar, fornecendo os códigos da moral e da ética. Sob essa ótica, pode-se dizer que a infância era uma etapa de preparação para a vida adulta.

Já no Renascimento, o pensamento humanista construiu uma nova e dinâmica compreensão de homem, onde a criança era concebida como sendo um ser imaturo, que deveria ser regulado, adestrado e normatizado, inicialmente pela família, até alcançar a maturidade de um convívio social.

Atribui-se a Rousseau (1712–1772) a “invenção” da infância, já que foi o primeiro a considerar esse início da vida como sendo uma idade autônoma, dotada de características específicas, diferentes das que são próprias da idade adulta. Ele partiu da premissa de que a criança tem um mundo próprio, com características diferentes em cada fase de seu desenvolvimento, dotada de desejos e sentimentos. Sendo assim, os pais deveriam lidar com os filhos através de uma educação que levasse em conta o direito e a liberdade dela de um desenvolvimento natural (antinomia), mas também os limites no convívio em grupo (heteronomia). Logo, as crianças precisariam ser acompanhadas e orientadas pelos pais, ou algum preceptor, respeitando seu crescimento em um ritmo lento e aprendendo sem pressa, de modo a evitar qualquer antecipação perigosa. Caberia aos pais, ou preceptor, permitir que a criança vivesse o quanto pudesse a própria infância, definida por Rousseau como a idade da alegria e da liberdade.

Desde então, progressivamente a infância foi adquirindo um status diferenciado, embora ainda com ênfase no desenvolvimento de habilidades que capacitassem a criança a ser um adulto respeitável e bem sucedido.

Chegando no início do século XX, as teorias freudianas sobre a natureza do homem e as etapas universais do desenvolvimento da criança, reconfiguram toda a ideia existente sobre a infância. Pode-se dizer que havia uma infância antes de Freud e passou a haver outra após Freud.

A partir daí, a humanidade não foi mais a mesma, pois Freud desnudou o ser humano na sua mais intima subjetividade, anunciando que é na infância que o indivíduo se constitui como pessoa. Nosso olhar sofreu uma abertura de sentidos sobre quem somos, o que nos move e como nos tornamos adultos. Suas teorias foram encontrando ampla aceitação e adesão de inúmeros e importantes cérebros intelectuais e seguem em evolução no contexto da psicanálise, ao ponto de hoje não se conceber mais uma compreensão do homem sem uma busca no seu passado remoto da infância.

Paradoxalmente aos avanços das teorias psicanalíticas sobre a natureza humana e as vicissitudes de seu desenvolvimento, o advento da tecnologia, a globalização e um discurso político polarizado, sem muito espaço para a mediação, começam a desconstruir os paradigmas, provocando aceleradas transformações, diluindo e dispersando o conhecimento, colocando em cheque a ética e a moral, jogando-nos no século XXI de uma hipermodernidade, caracterizada pela fluidez de tudo aquilo que nos dava referência. Entramos numa era em que tudo o que se sabia, deixa de valer no momento seguinte. A discriminação entre o certo e o errado se dissolve ou se radicaliza, numa tentativa desesperada de não desaparecer.

Concordo com Bauman de que os valores até então estabelecidos como os mais nobres e elevados, cada vez mais se diluem, como a água que escorre de nossas mãos, sem que sejamos capazes de detê-la.

É nesse estado de coisas que se encontram os pais, os educadores e os profissionais que se ocupam com crianças, como nós, os terapeutas. Os acontecimentos em geral nos tomam de surpresa, a planificação do futuro nos desafia em nossos hábitos e costumes, os caminhos são sempre muitos e não se pode perder nenhum. Parafraseando esse autor, eu entendo que se está concebendo uma infância líquida, que nega à criança as condições de segurança e estabilidade emocional, necessárias para uma personalidade madura, equilibrada e capaz de vínculos profundos e estáveis. Estamos numa sociedade“adultocêntrica”, diria eu, em uma espécie de volta às origens pré-históricas de uma infância negada, pré-rousseauniana. As etapas do desenvolvimento infantil desvendadas e descritas por Freud, em contínuo aprofundamento pela psicanálise, parecem perder a força nos vários segmentos sociais. A sociedade parece andar na contramão dessas descobertas, de um modo geral, pois tem pressa que as crianças cresçam, basta ver que elas mal nascem e já estão sendo separadas de suas mães, como sendo algo “necessário”, ficando por muitas horas diárias distantes dos pais e da família, sendo cuidadas e orientadas de forma impessoal.

Então eu me pergunto, um tanto atônita: por onde anda a infância?

Percebe-se que a concepção atual de infância está levando a sociedade a uma cultura de incertezas, ansiedade e insegurança. Ao se borrar a fronteira entre a condição do infantil e do adulto, transforma-se também a condição da criança na cultura. Corre-se o risco de se criarem crianças/adultos em miniatura, como acontecia na antiguidade, perturbando a aquisição daquela confiança básica na relação com os pais e a família, fundações que darão o suporte para uma estrutura bem formada de indivíduo.

Tem sido inquietante a constatação de um número crescente de crianças que se apresentam com um comportamento ansioso e hiperativo, grande parte das vezes erroneamente diagnosticadas como TDAH. Nos consultórios, deparamo-nos com uma crescente pobreza simbólica em crianças que já não sabem brincar de faz-de-conta, que agem mais do que pensam, que imitam mais do que criam, que falam mais do que sonham. Como fazer psicanálise nessas circunstâncias?

Neste momento de tantas inovações científicas e tecnológicas, em que a condição humana segue em uma vertiginosa liquefação, entendo como urgente e fundamental uma atitude de reflexão crítica e profunda por parte da sociedade. E a psicanálise, com todos seus recursos já consolidados e outros tantos ainda em desenvolvimento, pode contribuir de forma inestimável neste processo de reflexão.

Exorto a toda comunidade Esippiana a se engajar no desafio dessa nova construção da infância que está em andamento. Nosso compromisso com a sociedade e com a cultura vai muito além de nossos consultórios, pois os recursos que adquirimos e desenvolvemos nos permitem contribuir também para que não se percam os valores essenciais já conquistados pela civilização ocidental.

 

Autora: Sheyla Borowski – Coordenadora do ESIPP.


Este ensaio é um resumo do artigo INFÂNCIA NEGADA, publicada na Revista Brasileira de Psicoterapia, vol 17, número 2. Agosto de 2015.