PARTE DO AMADURECIMENTO É PERDOAR OS PAIS

Quando acompanhamos um paciente por tempo o suficiente em terapia, vemos as relações com os pais se modificarem, às vezes a ponto de parecerem pessoas diferentes. Essa mudança dos pais internos é uma das bases de um tratamento psicanalítico. Nosso papel é propiciar mudanças através de uma relação terapêutica. Na relação entre terapeuta e paciente, vão se construindo alianças mais saudáveis e ressignificando memórias.

A relação que um indivíduo tem com seus pais se altera ao longo da vida, o papel de quem fornece cuidado vai mudando. Se em um primeiro momento é necessário que algum adulto coloque o bebê em seu papel de majestade, também é necessário que alguém termine este reinado. Na adolescência, os pais, que já foram as pessoas mais importantes da vida, passam a ser, em alguns momentos, os vilões necessários e culpados por não entregarem a perfeição da fantasia infantil, e assim o indivíduo vai percebendo que seu tempo de majestade já passou. Assim passamos a enxergar os defeitos de um ser humano, que não é perfeito. Parte do amadurecimento é perdoar os pais.

Parte de amadurecer é compreender que os pais fizeram o que era possível para eles naquele momento com o conhecimento que tinham para isso. Em alguns casos é mais difícil deixar para trás as mágoas, os sentimentos, as lembranças de negligências, abandonos e às vezes até abusos, mas conseguir empatizar com os pais e compreender que por pior que tenha sido, eles fizeram o que puderam, pode ser libertador. Enxergar o paciente conseguindo perdoar seus pais é ver ele crescendo. E nós, como terapeutas, também precisamos passar por isso em nosso próprio processo terapêutico, afinal, se não pudermos empatizar com nossos próprios pais, como vamos ajudar os pais que buscam ajuda para seus filhos? É comum escutar que o mais difícil no tratamento com crianças é lidar com os pais, e isso talvez seja a dificuldade dos próprios terapeutas de vê-los como aliados. Ver os pais como culpados é uma visão adolescente. Não só no tratamento infantil, mas às vezes no trabalho com os pais internos de um paciente adulto podemos começar a compreender que a visão pode estar turva, com sentimentos que os impedem de ver o ser humano por trás do monstro guardado na memória.

O repertório de vivências nos ajuda a compreender melhor os outros. Algumas vezes, é vivendo um relacionamento amoroso que o indivíduo passa a compreender melhor o relacionamento dos pais. Assim como é comum que na maternidade a visão sobre as atitudes da mãe mudem conforme a pessoa se vê não só em uma nova posição, mas se ver também mãe, assim como a sua mãe.

Poder rivalizar e se afastar dos pais é parte do amadurecimento, mas poder perdoar, reconciliar e ter uma relação mais madura com os pais é essencial para uma adultez mais saudável. É uma transição natural do amadurecimento, e quando se trava no ressentimento e culpa pode ser sinal de algo que precisa ser resolvido para mudar de fase na vida. Perdoar os pais por não serem perfeitos não significa ter uma boa relação com os pais externos, e esse perdão não necessariamente significa que o indivíduo vai ter uma relação próxima com eles. As pazes precisam ser feitas com os objetos internos para que a vida não siga em guerra. É preciso perdoar os pais para assim conseguir lidar com o envelhecimento deles e o nosso próprio.

 

Autora: Gabriela Assis Brasil – Membro Efetivo do ESIPP.