PANDEMIA: UMA CASTRAÇÃO COLETIVA

Freud nos deixou como legado não só a riqueza teórica e técnica para sua  utilização na clínica. Como pensador da cultura – como tão bem expresso em seus textos sociais – ele nos instiga a utilizar a psicanálise como instrumento para compreender a realidade na qual estamos inseridos.

Neste momento histórico, marcado pela presença da pandemia, quando as palavras podem nos ajudar a nomear o que temos vivido de modo tão impactante, a ideia de trazer o conceito de “castração” – em sua acepção mais ampla – é uma forma de poder entender e lidar com esta dimensão da experiência a qual estamos submetidos.

A castração está relacionada aos conceitos de limite, finitude, transitoriedade, incompletude, perda. Vivência dolorosa que quebra nossa ilusão de onipotência na fase edípica, que nos acompanhará e se renovará ao longo da vida, sendo acionada de acordo com a equação etiológica particular de cada um.

Há situações, porém, que um dos elementos da dita equação tende a pesar com mais intensidade. E para muitas pessoas. E ao mesmo tempo. É como se esta castração que costuma ser vivenciada de um modo privado fosse compartilhada, sentida de modo agudo e onipresente. São momentos históricos emblemáticos, como foram a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, a Gripe Espanhola e a atual pandemia.

A primeira vez que Freud se referiu à castração como complexo foi em 1908, em “Sobre as teorias sexuais das crianças”. Nesse texto, ele nos apresenta – como reação imediata da criança frente à castração – o não querer saber a respeito dela. Essa desmentida estrutural é o lugar onde gostaríamos de nos refugiar quando nos deparamos com a realidade imposta pela castração: “Quero e não posso.”, “Perdi (acionando perdas anteriores) ou posso perder algo (ameaça).”.

Muitos imperativos passaram a fazer parte do nosso cotidiano com o advento da pandemia. “Fica em casa.” e “Usa máscara.” nos falam que não podemos transitar pela nossa vida como fazíamos antes e nem da forma como gostaríamos. Abrimos mão da nossa rotina, da convivência com as pessoas, dos lugares que gostávamos de ir. Estamos ameaçados por um inimigo invisível e potencialmente letal. Alguns perderam saúde, renda, trabalho, projetos. E muitas vidas foram ceifadas. Limite, finitude, incompletude, perda. Castração.

Se a desmentida é uma primeira possibilidade dentro do universo infantil, ela não se sustenta no laço social, na conexão com a realidade e no enfrentamento da mesma. Entre a desmentida e o sucumbir da melancolia, Freud nos acena com uma interessante possibilidade em “Transitoriedade”. Esse pensador que vivenciou as dores das duas grandes guerras e que perdeu sua amada filha Sophie em decorrência da Gripe Espanhola, escreve, neste belíssimo texto de 1916, sobre a importância de reconhecermos a castração e então podermos achar saídas.

Nesta  reflexão, ele apresenta esta possibilidade pelo trabalho do luto, associando o transitório e o limite com o valor e a fruição. Sendo a vida efêmera e o tempo precioso, poder conectar-se com a realidade, reconhecer a castração e então com ela lidar. A própria via poética do texto referenda a arte como uma alternativa. Nas palavras de Freud:

“Caso renunciemos a tudo que foi perdido, o próprio luto também enfraquece e então nossa libido torna-se novamente livre, pois ainda somos jovens e cheios de vida para substituir objetos perdidos por novos objetos possíveis, preciosos ou mais preciosos ainda. Esperemos que em relação às perdas dessa guerra não se caminhe de maneira diferente. Se antes o luto for superado, isso mostrará que nossa elevada avaliação dos bens culturais não sucumbiu à experiência de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, talvez com fundamentos mais sólidos e mais duráveis do que antes.”.

Mas se entendemos a pandemia como uma castração coletiva, a exemplo de Freud que utilizou a Primeira Guerra Mundial como cenário para seu texto, podemos pensar em todo o trabalho de luto que viemos fazendo ao longo de 2020, buscando as saídas que o nosso psiquismo permitiu. Todas as respostas que fomos capazes de dar, individual e coletivamente, mantendo, fortalecendo e transformando nossa Instituição. Mas, sobretudo, nos mantendo unidos. Parabéns ao ESIPP!

 

Autora: Larissa Ullrich – Psicóloga, psicoterapeuta e membro efetivo do ESIPP. Foi colaboradora do curso “Conceitos freudianos à luz da pandemia”, ministrado no ESIPP, em agosto e setembro de 2020.

 

 

FREUD, S. (1908). As teorias sexuais infantis. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

_________ (1916). Transitoriedade. In: Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.