O INVISÍVEL E A XXIII JORNADA DO ESIPP

O invisível sempre foi objeto de fascinação e assombro para a humanidade. Um inimigo visível pode ser identificado e vigiado. Já a ameaça invisível perturba porque é ela quem nos espreita.

Estamos, neste aflitivo e inédito momento, em contato com uma das maiores ameaças invisíveis das últimas gerações. Toda a sorte de mecanismos psíquicos – negação, onipotência, evitação, controle; para citar alguns – foram postos em marcha para amenizar a assoladora realidade de que somos pequenos. Somos transitórios.

Gráficos de evolução da curva. Estatísticas sobre o contágio. Comparativos entre os países. As discussões sobre o possível “excesso” de informação retratam o sobressalto interno diante de dados nada reconfortantes. O que faz mal não é informação em excesso: sair da ignorância tem um custo e implica em sofrimento. A psicanálise, como teoria e técnica, trata exatamente disso.

Nesta batalha – que não é apenas deste momento – entre querer saber (e saber-se) e no último instante virar o olhar, é onde o trajeto da apropriação subjetiva é trilhado. É onde ocorre o encontro com a verdade da história individual e da História do mundo. Um trajeto marcado pela dor no tornar VISÍVEL o que está INVISÍVEL.

Invisível, em primeiro lugar, no sentido de oculto — o negado e o cindido na tentativa de sustentar a sanidade, de reter o que resta do investimento e da esperança com a vida, de evitar a dor. O insuportável de ser visto e reintegrado fica alienado e aliena também o sujeito — de aspectos de si mesmo; de aspectos da sociedade que habita.

Invisível, em segundo lugar, no sentido de microscópico. Microagressões que penetram feito partículas radioativas no psiquismo, imperceptíveis ao olho nu. Violências fragmentadas e indiretas que, não reconhecidas como traumáticas, permanecem desintegradas da malha simbólica e do processo de historização.

A multiplicidade do invisível seria objeto de estudo da nossa jornada, marcada para os dias 29 e 30 de maio de 2020. Em vias de discutirmos presencialmente o tema do invisível, tivemos que aceitar as nossas limitações e exercitar a capacidade de suspensão. Essa renúncia vem justamente porque constatamos que o invisível, porém sonoro, existe. Essa renúncia se deu por reconhecimento. Porque não podemos negar que somos vulneráveis e precisamos cuidar uns dos outros.

Ainda que o adiamento tenha se feito necessário, não nos desmobilizaremos para a realização deste belo encontro psicanalítico. O faremos porque a clínica psicoterápica psicanalítica exige. Porque o reconhecimento e o confronto com o invisível é indispensável para torná-lo disponível para o crescimento mental.

A imprevisibilidade da situação nos impede de, neste momento, definir a nova data. Mas certamente estaremos juntos em breve, conferindo sentido e palavra para o que estamos vivendo.

 

Autora: Bruna Holst – Coordenadora do ESIPP e da XXIII Jornada do ESIPP.