O CAMINHO E AS CAMINHANTES: O ESPAÇO DE SUPERVISÃO HOJE

Era uma vez uma ideia de supervisão que surgiu num período distante. Numa época em que as discussões sobre alteridade eram mais escassas e movimentos sociais – que botam luz sobre questões de raça e identidade sexual – praticamente não existiam. Um tempo em que ainda era mais forte o entendimento de que o complexo de Édipo referia-se puramente ao aspecto biológico e que, portanto, quem tinha, tinha, e quem não tinha, invejava. Não à toa o supervisor era visto como um profissional bastante diferenciado. Em posse do conhecimento que adquiriu ao longo dos anos, ele contrastava com os iniciantes que escutavam atentos ao seu discurso, desejando algum dia alcançar um lugar parecido com o seu. Era um sistema vertical, lógico e organizado que transmitia muito do que o menos experiente precisava saber. Funcionava tão bem que até hoje essa estrutura permanece viva, sobretudo em meio às instituições de formação em psicoterapia psicanalítica ou psicanálise.

Contudo, transformações sociais importantes vêm acontecendo ao longo dos últimos anos e, inevitavelmente, estão impactando não só a teoria e a prática clínica, como também as relações de ensino-aprendizagem que parecem não comportar mais uma dinâmica tão assimétrica na qual um sabe muito mais e o outro sabe pouco. Inclusive, nossa hipótese é de que tais mudanças apontam para um furo no formato tradicional, lembrando que existem questões talvez ainda pouco abordadas a respeito das trocas entre aquele que supervisiona e aquele que está ali para desenvolver sua clínica.

Dentre esses pontos está o reconhecimento de que hoje temos nos deparado com uma nova qualidade de supervisionando. Inserido num contexto cultural mais complexo (no sentido rico da palavra), ele chega atravessado pela tecnologia e por causas políticas que não raro lhe proporcionam um saber que pode escapar ao supervisor, convidando este último a re-posicionar-se a um lugar de também aprendiz. Dessa forma nos ocorre que a transmissão passa a ser uma via de mão dupla, mais horizontal. Ambos têm algo a dizer e a aprender. Ademais, temos observado, tanto no grupo de estágio quanto no grupo de iniciantes da formação, sujeitos que já chegam mais íntimos da psicanálise, não só por acesso a textos, profissionais e cursos pela internet, mas também pelo próprio tratamento pessoal.

No entanto, o que nos motivou a desenvolver essa escrita foi outro aspecto. Sabe-se, desde sempre, que o supervisor oferece-se como um modelo de identificação. Ele entrega sua escuta, sua voz e sua criatividade como uma espécie de referência àquele que o procura para tal tarefa conjunta, contribuindo para que se compreenda melhor os casos atendidos. Mas, por ser a relação supervisionando/paciente o foco principal das supervisões, acreditamos que pouco se pensa sobre a repercussão que os encontros com o próprio supervisor pode gerar no psiquismo daquele que ele acompanha. É como se houvesse uma cisão entre o fazer e o ser naquele momento, podendo abrir espaço, no nosso entendimento, para trocas, até certo grau, desastrosas. Dessa forma, essas e outras situações, tanto negativas quanto positivas, nos fazem questionar se é completa ou minimamente possível separar a relação dessa forma. Se o nosso ofício passa pelo inconsciente, ainda que amparado pela teoria e pela técnica, será viável uma distinção absoluta entre o profissional e o pessoal?

Comumente, nosso primeiro contato com o espaço de supervisão se dá nos estágios, durante a faculdade. Nesse período, em que estamos nos  familiarizando com o papel de estagiário-psicoterapeuta e nos aproximando do corpo teórico e da prática, transpomos sem questionar muito o que o supervisor indica à sessão com os pacientes. Não raro, seguimos essa dinâmica no início da formação, trabalhando para que, paulatinamente, nos sintamos mais seguros e menos dependentes do outro-supervisor. A expectativa é que, aos poucos, possamos nos apropriar da posição de psicoterapeutas, mediante a ajuda e a escuta de um profissional com mais bagagem.

Dessa forma, levantamos perguntas que talvez não saibamos responder em palavras: qual o lugar que o supervisor e a supervisão ocupam nas nossas vidas? Até que ponto é preciso idealizar? Esse tipo de encantamento seria mesmo um caminho, ou a única base possível para tal vínculo e para a construção do nosso arcabouço técnico? Trata-se apenas de uma troca profissional? Se encerra facilmente o que vemos na supervisão e o que vemos na nossa própria psicoterapia/análise?

Se hoje temos a compreensão do campo como sendo mais que a soma das partes, a contratransferência e a transferência como sendo impossíveis de serem tão bem diferenciadas, será possível ainda vermos a supervisão como um campo neutro, em que não há relação? Nada se passa ali além da edificação profissional, de forma asséptica?

A supervisão caminha lado a lado com a nossa psicoterapia/análise pessoal (no melhor dos casos). Trabalhamos num e noutro espaço, de formas diferentes, mas complementares, quem somos e quem queremos ser, e tal forma de ser interfere nas nossas intervenções, também. Se tudo der certo, evoluímos pessoalmente porque crescemos profissionalmente. E crescemos profissionalmente porque evoluímos pessoalmente. Se não há apenas uma forma de sentir, uma forma de ser psicoterapeuta, não é possível que a tarefa dos supervisores se apresente rígida sem uma multiplicidade de estilos e propósitos.

Nesse processo em que passamos de supervisionandas a supervisoras, interrogamos também nosso lugar nesse trajeto e no percurso de quem acompanhamos. Qual o nosso papel agora que somos o “outro-supervisor”? Consideramos que tal fazer passa pelo afeto, sustentado pelo que estudamos, praticamos; bem como pela nossa própria supervisão e análise pessoal. Estamos ali para além de um objeto idealizado, mas como um alguém diferente, também com suas dúvidas e espaço interno para compartilhar e absorver conhecimento. Um sujeito outro que escuta, aponta, comenta e que constrói junto, acima de tudo. E que sente, também. Se as nossas vivências enquanto pacientes, psicoterapeutas e supervisionandas são balizadas pelo que sentimos, torna-se impossível (e indesejável) que aquilo que nos toca fique de fora dessa experiência, visto que são vivências indissolúveis e complementares.

Se a supervisão nos convoca a sermos melhores psicoterapeutas, e somos nós compostos de uma complexidade indizível e inesgotável, o que sentimos irá perpassar o que fazemos e o que somos; cada qual com sua particularidade. Há o famoso match entre paciente e psicoterapeuta. Ousamos dizer que o encontro de supervisor e supervisionando também é perpassado por algo invisível aos olhos, mas se faz vivo e pulsante no significado que ocupa em nossas vidas – cada um com o que puder ou quiser dar.

 

Autoras:

Juliana Neves, Psicóloga, Membro Efetivo e coordenadora do Núcleo de Profissionais do ESIPP.
Moema Linkiwcz, Psicóloga, Membro Associado e coordenadora do Núcleo Social do ESIPP.