FREUD EXPLICA: NEGACIONISMO CIENTÍFICO

Freud, ao discorrer sobre as visões de mundo religiosa e científica, ilumina o atual debate sobre o NEGACIONISMO CIENTÍFICO. Em “Acerca de uma visão de mundo” (1933), ilustra um tipo de pensamento que, manifesto em discurso, nos parece estranhamente familiar na atualidade:

“Que fez ela (a ciência) até agora? Que mais podemos esperar dela? É incapaz de trazer consolo e elevação, como ela própria admitiu. Então vamos deixá-la de lado, embora esta não seja uma renúncia fácil. E quanto às suas teorias? Pode ela nos dizer como surgiu o mundo e que destino terá? Pode nos traçar uma imagem coerente do universo e nos mostrar onde ficam os fenômenos não explicados da vida, como as forças do espírito conseguem agir sobre a matéria inerte? Se ela fosse capaz disso não lhe recusaríamos nosso respeito. Mas não, nenhum desses problemas ela chegou a resolver. Ela nos dá fragmentos de um suposto conhecimento, que não consegue harmonizar uns com os outros, reúne observações de regularidades no curso dos eventos, que distingue com o nome de leis e submete a suas arriscadas interpretações. E o pequenino grau de certeza de que reveste suas conclusões! Tudo o que ensina é válido apenas provisoriamente; o que hoje é louvado como alta sabedoria é amanhã dispensado, e mais uma vez substituído experimentalmente por outra coisa. O último erro é chamado então de verdade”.

Sobre estas críticas, Freud firma o pé na ciência como caminho legítimo para a verdade. Um caminho tortuoso e sem garantias, cujo maior mérito é também sua máxima vulnerabilidade: a possibilidade de falseabilidade/refutabilidade. A ciência não almeja verdades absolutas – essa é justamente a essência da natureza científica, já diria Karl Popper.

Entretanto, em momentos como o atual, de desamparo e incerteza sobre o futuro, a ciência nos confronta com a nossa ignorância. Ao iluminar uma parte da verdade, expõe as áreas escuras, preenchidas pelo não saber. O desejo por uma verdade incontestável e salvadora, o “remédio milagroso”, pode criar uma perigosa operação mental que conduz à negação da realidade – enorme imprudência diante do caos que estamos vivendo.

Para finalizar, concluo com Freud, ainda no texto de 1933, que diante da complexidade que caracteriza o fenômeno da negação da ciência, reforça a convicção de que apenas através do frustrante contato com a realidade é que podemos construir verdadeiro conhecimento:

“O caminho da ciência é mesmo assim, lento, hesitante, laborioso. É algo que não se pode negar ou mudar (…). O progresso, no trabalho científico, ocorre de maneira muito semelhante ao de uma análise. Levamos expectativas para o trabalho, mas temos de refreá-las (…). E, afinal, que pretendem essas apaixonadas difamações da ciência? Apesar de sua atual imperfeição e das suas dificuldades intrínsecas, ela nos é indispensável e nada mais pode substituí-la”.

Autora: Bruna Holst – membro e docente do ESIPP.